quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Meu-eu



Constatei o seguinte: Sou uma sombra.

Não por opção. Não escolhi ser o reflexo escuro e sem vida de outrém, mas aqueles à minha volta, me condicionaram a esta realidade. Cada gesto que faço ou palavra que profiro, parece o ato ensaiado de repetição daquilo que alguém fez, ou faz. Não tenho autonomia nem mesmo para ter personalidade, essa cópia chula de gostos e desgostos, já esperada pelos que me assistem.
Se gosto é porque outros já gostavam. Se não gosto, soa como um lamentável grito de independência impossível. Apenas uma revolta de minha parte. Revolta-me.
Chego mudo e saio calado. Na verdade, gastei todo o meu latim, tentando ser educado e agradável àqueles que, sequer, notaram que eu estava ali. Apenas, sinto-me mudo. Desfiro um grito surdo, e sufocado pela indiferença a mim devotada. Grito, esperneio, me altero e só o que percebem é uma brisa suave. Anuncio uma tempestade que ninguém viu passar, mas os que perceberam-na se formar, tinham certeza que era apenas tempo feio, logo passaria como sempre passa.

E tudo volta ao que era. E me torno invísivel. Não como a experiência do cientista do livro de H.G. Wells (1897), ou o personagem do filme de Paul Verhoeven (2000) pois estes, protegidos pela ficção, de fato, não se podiam ver por quem quer que fosse. Minha invisibilidade é filosófica. Ocupo lugar no espaço como qualquer corpo, mas tenho a mesma importância que uma folha seca.
Fosse eu um otimista, diria que até mesmo a folha seca, não notada, pisoteada e apagada pela realidade que a cerca, tem sua função no equilíbiro das coisas, como fertilizar o solo que cobre. Talvez seja essa a função deste corpo insosso, apenas fertlizar o substrato que o abrigará quando até mesmo esta alma abandoná-lo.

Contudo, além desta sombra que pouco é enxergada, existe, na verdade, sentimentos. Alegrias e tristezas, saúde e doenças, morte e vida. Quisera eu ser a criatura mais interessante deste planeta, porém, tampouco acredito ser tão irrelevante quanto (não) me vêem. Dentro desta sombra sem graça, existe luz. Alma luminosa, personalidade única, defeitos, qualidades, gostos e desgostos, que na verdade me são inatos. Próprios.

Minha dor me faz humano, minha amargura me traz o ócio criativo. “Dor não é amargura”, já dizia Adélia Prado. Até mesmo minha invisibilidade social me traz benefícios. Posso ser e fazer o que quiser, que ainda assim me enxergarás como queres. Como me pintam. Não sou como pensas. De tudo, tenho um pouco. Puritano e Imoral. Humano e Monstro. Matéria e Alma. Não mais imploro para que me enxerguem, prefiro viver minha sombra à luz dos meus desejos, menos hipócritas que os pertencentes àqueles que me condicionaram a esta sombra.

Não tenho mais a obrigação da gentileza forçada. Não pergunto como estás. Não me interessa. Não te chamo para me acompanhar em um chá, se o que me agradaria, na verdade, era servir-te veneno. Não sorrio, não sou gentil, não sou educado. A menos que seja verdadeiro e não por protocolo. Mas àqueles (poucos) que realmente me enxergam, posso ser a criatura mais dócil, interessante e calorosa, possível. Se me veres, então me enxergarás.

Autor: Giovanni Sciocco

3 comentários:

Gustavo disse...

Irmão, muito bom este texto! Meus parabéns cara... continue sempre com este hábito de escrever, porque a escrita nos abre grandes caminhos! Grande abraço!

Leonardo Belançon disse...

Valeu brother :p

No caso dessa postagem, só "repassei" o texto do carinha ali. Achei angustiante, mas sentimental, e eu gosto muito disso. Por isso postei.

Quem sabe não posto uma das minhas crônicas qualquer hora? hehe
Dá um certo receio de não gostarem daquilo que eu escrevo, mas sei que terei que correr o risco.

Valeu por comentar a postagem ;P

Manu Duarte disse...

Eu quero ler o que você escreve!!! E essa sua vontade de percorrer e conhecer a América latina tem tudo haver com o espirito unileiro! Você ia gostar daqui... rs (Se é que estou certa no que digo.) bjs, saudade.
Adorei o blog.

Manu.