terça-feira, 29 de novembro de 2011

Meus Amigos

Amizade é, talvez, a mais importante relação interpessoal na vida do ser humano. Tamanha importância é reconhecida inclusive na Bíblia Sagrada. Amizade, assim como o amor romântico, exige reciprocidade. Não se ama sozinho, na mesma medida que não se é amigo sozinho.
Velhos, novos, passageiros ou eternos, amigos são presentes de Deus. "Amigo fiel é poderosa proteção: quem o encontrou, encontrou um tesouro." (Eclesiástico 6, 14).

Dedico esta crônica de Vinícius de Moraes a todos os meus Amigos.

 
" Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.

A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. 
E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências...

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas, é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure.

E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo!

Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles.Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer...

Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!

A gente não faz amigos, reconhece-os."

 
Vinícius de Moraes

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Meu-eu



Constatei o seguinte: Sou uma sombra.

Não por opção. Não escolhi ser o reflexo escuro e sem vida de outrém, mas aqueles à minha volta, me condicionaram a esta realidade. Cada gesto que faço ou palavra que profiro, parece o ato ensaiado de repetição daquilo que alguém fez, ou faz. Não tenho autonomia nem mesmo para ter personalidade, essa cópia chula de gostos e desgostos, já esperada pelos que me assistem.
Se gosto é porque outros já gostavam. Se não gosto, soa como um lamentável grito de independência impossível. Apenas uma revolta de minha parte. Revolta-me.
Chego mudo e saio calado. Na verdade, gastei todo o meu latim, tentando ser educado e agradável àqueles que, sequer, notaram que eu estava ali. Apenas, sinto-me mudo. Desfiro um grito surdo, e sufocado pela indiferença a mim devotada. Grito, esperneio, me altero e só o que percebem é uma brisa suave. Anuncio uma tempestade que ninguém viu passar, mas os que perceberam-na se formar, tinham certeza que era apenas tempo feio, logo passaria como sempre passa.

E tudo volta ao que era. E me torno invísivel. Não como a experiência do cientista do livro de H.G. Wells (1897), ou o personagem do filme de Paul Verhoeven (2000) pois estes, protegidos pela ficção, de fato, não se podiam ver por quem quer que fosse. Minha invisibilidade é filosófica. Ocupo lugar no espaço como qualquer corpo, mas tenho a mesma importância que uma folha seca.
Fosse eu um otimista, diria que até mesmo a folha seca, não notada, pisoteada e apagada pela realidade que a cerca, tem sua função no equilíbiro das coisas, como fertilizar o solo que cobre. Talvez seja essa a função deste corpo insosso, apenas fertlizar o substrato que o abrigará quando até mesmo esta alma abandoná-lo.

Contudo, além desta sombra que pouco é enxergada, existe, na verdade, sentimentos. Alegrias e tristezas, saúde e doenças, morte e vida. Quisera eu ser a criatura mais interessante deste planeta, porém, tampouco acredito ser tão irrelevante quanto (não) me vêem. Dentro desta sombra sem graça, existe luz. Alma luminosa, personalidade única, defeitos, qualidades, gostos e desgostos, que na verdade me são inatos. Próprios.

Minha dor me faz humano, minha amargura me traz o ócio criativo. “Dor não é amargura”, já dizia Adélia Prado. Até mesmo minha invisibilidade social me traz benefícios. Posso ser e fazer o que quiser, que ainda assim me enxergarás como queres. Como me pintam. Não sou como pensas. De tudo, tenho um pouco. Puritano e Imoral. Humano e Monstro. Matéria e Alma. Não mais imploro para que me enxerguem, prefiro viver minha sombra à luz dos meus desejos, menos hipócritas que os pertencentes àqueles que me condicionaram a esta sombra.

Não tenho mais a obrigação da gentileza forçada. Não pergunto como estás. Não me interessa. Não te chamo para me acompanhar em um chá, se o que me agradaria, na verdade, era servir-te veneno. Não sorrio, não sou gentil, não sou educado. A menos que seja verdadeiro e não por protocolo. Mas àqueles (poucos) que realmente me enxergam, posso ser a criatura mais dócil, interessante e calorosa, possível. Se me veres, então me enxergarás.

Autor: Giovanni Sciocco