sábado, 3 de setembro de 2011

03 de Setembro

Como bom saudosista que sou, vou contar uma história que já teve um fim.

Nesse mesmo dia, há 81 anos uma família italiana recebia mais um membro. Aquele menino seria o único dos 3 filhos mais velhos a chegar à idade adulta. Após ele, vieram mais 7 crianças, 5 meninas e 2 meninos. Família grande, humilde e trabalhadora que ainda cultivava com orgulho os costumes, culinária e até mesmo o idioma da terra natal. 

Um dia essas pessoas rumaram para o norte do Paraná, todos juntos como a maioria das famílias de imigrantes. O país já não era tão desconhecido para eles, mas os laços sanguíneos falavam mais forte. Junto desse menino de quem conto a história, e de sua família, vieram tios e primos. Agora o menino já não era uma criança e sim um rapaz. Não teve oportunidade de estudar, mal foi alfabetizado por conta da lida na roça para ajudar seus pais a colocar comida na mesa.
Um dia, esse rapaz conheceu uma jovem professora, elegante, muito bonita e dedicada. Talvez não fosse ela, a companheira mais coerente para ele, uma vez que o rapaz possuía o jeito rústico e simples do povo da roça e a moça era mais instruída e delicada.

O rapaz se encantou pela moça e o sentimento foi recíproco. Ela que, na verdade, era tão simples quanto ele e também vinha de uma família de imigrantes, se encantou pelo jovem rapaz. Anos mais tarde se casariam e teriam 5 filhos, dois meninos nascidos com dois anos de diferença entre eles, em seguida gêmeos e  por fim uma menina. Infelizmente os gêmeos não resistiram à precariedade dos serviços de saúde daquela época e morreram logo após o parto. A moça, que agora casada merecia o título de senhora, foi professora das crianças daquele vilarejo formado pela família do rapaz, enquanto ele ainda trabalhava dedicadamente como agricultor.

Em 1965 mudaram-se para uma cidade a uns 200km dali, e segundo diziam na época, tinha tudo para crescer e se desenvolver. Como de costume, os irmãos, pais e alguns tios do rapaz vieram junto com ele e sua esposa e filhos. Tendo acabado de ser fundada, a família do rapaz estaria entre as primeiras a se fixar nessa cidade. Ali, o pai do rapaz comprou uma propriedade rural perto da pequena aglomeração urbana e um terreno exatamente no centro da cidade, onde construiu uma casa de madeira que seguia os padrões das casas italianas no Brasil daquele tempo. Orgulho das origens não faltava para essa família cujas raízes estavam no Vêneto, norte da Itália. Anos depois esse terreno seria dividido em dois, metade ficou para o jovem rapaz e a outra metade foi vendida para um senhor português que construiu ali uma filial da sua rede de supermercados.
Os anos se vão mais um pouco e no início da década de 1970, a casa onde o jovem senhor e sua família moravam no centro da cidade é incendiada. Dentro de casa o homem se apressa em salvar sua família. Esposa, filhos e uma cunhada que então morava com eles, tiveram que sair para o meio da rua com a roupa do corpo, que na ocasião eram pijamas. Não fosse a solidariedade dos vizinhos e do restante da família, o homem e sua família teriam passado por momentos ainda piores do que os que passaram ao perder sua casa, seus bens, roupas e móveis.
Com a força, dedicação e fé em Deus que lhe eram características, aos poucos o jovem senhor e a esposa reconstruíram a casa e recuperaram roupas, móveis, etc. Na década seguinte alegrias e tristezas para a família. Entre 1980 e 83 seus 3 filhos se casaram e deram ao jovem senhor e sua esposa os primeiros netos, um de cada filho, mais tarde viriam outros que completariam o total de 7,  4 homens e 3 mulheres. E nas tristezas para a família, em 1983 o pai do jovem senhor falece, em 1989 a mãe dele, ambos já passavam dos 80. Família de longevidade.

Em 2002 talvez a maior dor da vida desse senhor, sua amada esposa e companheira de mais de 40 anos vai para junto de Deus, onde eles sempre buscaram garantir um lugarzinho seguindo com dedicação as palavras do Salvador e tentando viver e passar os valores e a fé cristã aos seus filhos e netos.
Em outubro de 2005, ao anoitecer do dia 13 acaba-se a história desse italiano nascido no Brasil. Aos 75 anos ele parte. Seu legado foi memorável. Filhos, netos, noras e genro que completam uma família maravilhosa. Valores deixados que marcaram profundamente a vida daqueles que o conheceram. Sua paciência, todo o amor e atenção dedicados aos filhos e netos, todo o respeito e admiração devotados à sua esposa até mesmo após a partida dela, 3 anos antes.

O senhor em questão e que hoje completaria 81 anos é o cara em quem eu mais me espelhei a vida toda, de quem, com muita honra, herdei muitas características, entre elas a torcida fiel à seleção italiana de futebol e o grande orgulho de ser oriundi (termo que designa italianos não nascidos na Itália - descendentes).
Esse senhor chamava-se Ricieri Belançon e era o meu avô e meu herói.


"Nonno" Ricieri e Eu - 1998

As pessoas homenageiam artistas, filósofos e cientistas famosos que influenciaram suas vidas e pensamentos, eu resolvi homenagear um homem que de fato fez diferença na minha vida desde a infância e não era mundialmente famoso, mas era incrível!

6 comentários:

nicholas disse...

léo, INCRIVEL, como vc disse. Seu super herói tem minha admiração tambem hehe

Leonardo Belançon disse...

E essa é só a história resumida :p
Meu nonninho era FODA!

Débora disse...

Léo, meu primo querido!!! Que lindo o seu texto...eu não conhecia metade desta historia!!! Me emocionei demais!!! Obrigada por me deixar conhecer um pouco melhor o vô!! BjuZzzz

Leonardo Belançon disse...

Déé a história do vô e da vó é linda. Tanto antes de se conhecerem como depois que se casaram. Nossos avós foram pessoas incríveis de quem tenho muito orgulho.

E são os responsáveis por essa família maravilhosa que é a nossa né?! hehe

Saudade Dé :p

Marcelo Belançon disse...

Texto muito bem escrito, relata fielmente a história do saudoso avô. Parabéns Léo, parabéns vô. Saudade.

Aline Torres disse...

Léo, conheci seu blog hoje e estou admirada com a forma clara, delicada e cuidadosa da sua escrita, além de extremamente emocionada especialmente com esta postagem...
Um grande abraço e como disse o Marcelo, parabéns!